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A caravana

Quando tentaram prender os homens e as ideias continuaram viajando

Por Pedro Mastrobuono

Há golpes que derrubam governos. Outros tentam interromper futuros. Talvez a violência de 1964 não possa ser medida apenas pelo número de mandatos cassados, pessoas presas, professores afastados ou brasileiros obrigados ao exílio. Há outra contabilidade, muito mais difícil de realizar. É preciso perguntar o que aquele país estava pensando quando foi interrompido.

Meu pai, Marco Antonio França Mastrobuono, pertencia a uma geração para a qual universidade, política, planejamento, desenvolvimento e transformação social ainda conversavam intensamente entre si. Sua vida pública começou muito antes de ocupar funções de Estado. Começou na universidade.

Estudante da Escola Politécnica, envolveu-se intensamente na política estudantil da Universidade de São Paulo e chegou à presidência do DCE. Depois viria a própria vida acadêmica, como instrutor da Poli, e uma rede de relações que reunia jovens que, décadas mais tarde, ocupariam lugares muito diferentes na história brasileira.

Fernando Henrique Cardoso foi um de seus grandes amigos. Há uma lembrança familiar que talvez diga mais sobre essa amizade do que qualquer currículo. Durante a lua de mel, meus pais foram assaltados na Argentina. Voltaram ao Brasil sem dinheiro sequer para as despesas domésticas daquele primeiro mês de vida de casados. Foi Fernando Henrique quem emprestou a meu pai o necessário para que pudessem atravessar aqueles dias.

Plínio de Arruda Sampaio também era seu amigo próximo. Frequentava nossa casa. José Gregori fazia parte daquele círculo, e eu próprio, muitos anos depois, ainda teria com ele uma convivência afetuosa, almoçando juntos diversas vezes.

Antes de se tornarem personagens da história brasileira, eram pessoas que se encontravam, discutiam, discordavam, ajudavam umas às outras, construíam famílias e imaginavam um país.

Em 13 de março de 1964, na noite do Comício da Central do Brasil, Fernando Henrique Cardoso retornou de trem do Rio de Janeiro para São Paulo. Décadas depois, ao recordar aquele momento, mencionaria nominalmente entre seus companheiros de viagem Plínio de Arruda Sampaio, José Gregori e Marco Antonio Mastrobuono.

Conversavam sobre a situação política. Não poderiam saber exatamente o que aconteceria poucos dias depois. Mas sabiam que alguma coisa estava prestes a romper-se.

Meu pai já havia exercido funções ministeriais no governo de João Goulart. Darcy Ribeiro pertencia àquele mesmo governo. Almino Afonso também. E então veio o golpe.

Meu pai foi preso e solto sete vezes. Na última prisão, não levaram apenas o homem. Levaram também todos os livros de nossa casa.

Essa imagem me acompanhou durante toda a vida. Talvez porque explique, com uma brutalidade quase perfeita, aquilo que regimes autoritários compreendem intuitivamente. Não basta perseguir pessoas. É preciso atingir os lugares onde as ideias circulam.

Universidades. Livros. Conversas. Pesquisas. Instituições. Redes de inteligência. O chamado Livro Negro da USP, reconstruído muitos anos depois a partir da documentação da própria Universidade, permite compreender a extensão desse processo. Ali aparecem, entre tantos outros, nomes como Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Mário Schenberg, Paulo Singer, Villanova Artigas, Isaías Raw e Marco Antonio Mastrobuono, então ligado à Escola Politécnica.

Não formavam um bloco homogêneo. Discordavam. Seguiriam caminhos políticos diferentes. Alguns se afastariam profundamente uns dos outros. Mas havia ali uma concentração extraordinária de inteligência.

E talvez uma das maneiras mais honestas de compreender a violência daquele período seja esta: não medir apenas aquilo que ele destruiu, mas também a qualidade daquilo que tentou impedir de existir.

Quando levaram os livros de nossa casa, porém, havia um problema que talvez os homens que os carregaram não pudessem resolver. Aquilo que já havia sido lido não podia ser confiscado. As estantes podiam ser esvaziadas. As ideias já haviam partido. E partiram literalmente.

O exílio não deve ser romantizado. Ele significou medo, perda, famílias deslocadas, carreiras interrompidas, pessoas obrigadas a reconstruir a própria vida longe do país em que haviam imaginado realizá-la.

Mas produziu também uma consequência que os perseguidores provavelmente não calcularam. Ao expulsar parte de sua inteligência, o Brasil ajudou involuntariamente a latino-americanizá-la.

Os homens partiram. As perguntas viajaram com eles. Darcy Ribeiro é talvez um dos exemplos mais conhecidos. Seu pensamento sobre educação, universidade, antropologia e América Latina adquiriu durante o exílio uma dimensão continental extraordinária.

Meu pai percorreu outro caminho. Foi para o Peru. Em Lima, tornou-se diretor da Junta del Acuerdo de Cartagena, organismo central do processo de integração andina. Fora contratado para um cargo vitalício, ao qual posteriormente renunciaria quando decidimos retornar ao Brasil.

Não estava ali apenas administrando uma organização internacional. Estava pensando. Produzindo. Circulando. Construindo redes.

Em setembro de 1970, documentos já o registram, pela Junta, numa missão técnica relacionada à Corporação Andina de Fomento, a CAF, que percorreria Peru, Bolívia, Equador, Colômbia e Chile examinando projetos empresariais, questões financeiras, fatores econômicos e problemas jurídicos.

Um brasileiro que havia sido perseguido em seu país estava agora atravessando os Andes para pensar desenvolvimento regional.

No ano seguinte, em Santiago do Chile, participou de um seminário internacional dedicado aos investimentos estrangeiros e à transferência de tecnologia na América Latina. Ao redor daquela discussão estavam alguns dos nomes relevantes do pensamento econômico e tecnológico latino-americano de então.

Fernando Fajnzylber. Aldo Ferrer. Aníbal Pinto. Juan Somavía. Máximo Vega-Centeno. Constantine Vaitsos. José Antonio Mayobre. Miguel Wionczek. Entre tantos outros.

Meu pai apresentou ali um trabalho que seria publicado em 1972: “Aspectos de la transferencia de tecnología en la fase de preinversión.”

O texto, publicado pela ILDIS-FLACSO, não desapareceu. Décadas depois, continua catalogado em bibliotecas e incorporado a bibliografias internacionais sobre política científica e tecnológica na América Latina.

Isso importa. Porque o exílio não conseguiu interromper a produção intelectual. Mudou sua geografia.

E há uma ironia histórica difícil de ignorar. Um país constrange, prende ou expulsa parte de seus técnicos, professores, engenheiros e intelectuais. Pouco depois, instituições internacionais passam a utilizar precisamente aquilo que se tentou silenciar: sua inteligência.

Meu pai não foi para a América Latina deixar de pensar o Brasil. Passou a pensar o Brasil a partir da América Latina.

A transferência de tecnologia não era uma questão abstrata naquele momento. Falava-se de investimento estrangeiro, dependência, escolha tecnológica, capacidade científica, engenharia, planejamento e autonomia para países que procuravam desenvolver-se sem simplesmente reproduzir modelos produzidos em outros lugares.

Anos depois, já novamente no Brasil, Marco Antonio reapareceria em estudos vinculados à CEPAL e ao IPLAN sobre as possibilidades de cooperação econômica entre o Brasil e o Grupo Andino.

Seu campo era novamente revelador: serviços de engenharia. Brasil. Grupo Andino. Cooperação. Tecnologia. Desenvolvimento.

A trajetória começava a demonstrar uma coerência que talvez somente a distância permita perceber. Planejamento. Infraestrutura. Engenharia. Integração latino-americana. Transferência tecnológica. Desenvolvimento.

Mais tarde, novamente no Brasil, viria o planejamento urbano. E, em outra etapa de sua vida, a arte. Alfredo Volpi. Colecionismo. Pesquisa. Patrimônio. Memória.

À primeira vista, parecem territórios diferentes. Talvez não fossem. Em todos eles existia uma pergunta semelhante: o que fazemos com aquilo que recebemos e como o entregamos a quem virá depois?

Mas a vida de uma pessoa não permanece apenas nos cargos que ocupou ou nos textos que publicou. Às vezes, permanece dentro de outras pessoas.

Foi nessa parte da pesquisa que reencontrei Gustavo Fernández Saavedra, o Toto. Diplomata, homem público, várias vezes chanceler da Bolívia, personagem importante da integração latino-americana e, para minha família, muito mais simplesmente, um amigo. Um grande amigo de meu pai.

Quando Marco Antonio enfrentava a doença, Toto lhe escreveu em dezembro de 2014. Começou: “Marco, hermano querido.” E, ao despedir-se: “para ti, hermano del alma, un larguísimo abrazo!!”

Irmão de alma. Não era uma homenagem escrita depois da morte. Meu pai estava vivo. Era assim que um homem que havia atravessado parte da história latino-americana ao lado dele escolhia chamá-lo.

Em fevereiro de 2016, quando o estado de saúde de meu pai se agravou, Toto tentou telefonar. Não conseguiu falar com ele. Escreveu então à minha irmã Maria: “Charito y yo estamos acompañándolos, con toda el alma.” E acrescentou: “tuviste un padre excepcional y lo llevarás siempre contigo.”

Meu pai morreu poucos dias depois. Dois anos se passaram. Em julho de 2018, Maria voltou a escrever a Toto. Ele respondeu de La Paz. E escreveu uma frase que hoje, diante dos documentos que venho recuperando, ganhou para mim uma dimensão que talvez nem ele pudesse antecipar: “Recuerdo constantemente a Marco Antonio, mucho más ahora cuando empiezo a recapitular mi vida.”

Depois: “Su amistad, sin duda, fue una de esas experiencias que me marcaron para siempre.” Quando começou a recapitular a própria vida, meu pai estava lá. Oito anos depois, essa recapitulação transformou-se em livro. O título:

La caravana sigue.

A escolha dessa imagem não é uma coincidência qualquer. Ao explicar publicamente a ideia da caravana, Toto atribuiu-a expressamente a Marco Antonio. Meu pai lhe havia falado de uma compreensão da existência segundo a qual pertencemos a alguma coisa maior do que nós mesmos. Primeiro a família. Depois os amigos. Depois a comunidade. O país. O povo. A cultura. A história. As montanhas. A paisagem. Uma caravana.

Entramos nela. Caminhamos durante algum tempo. E um dia saímos. A caravana continua. Talvez essa seja a medida mais profunda da fecundidade de uma vida intelectual. Não apenas os livros que alguém escreveu. Não apenas os cargos que ocupou. Não apenas as instituições que ajudou a construir. Mas as ideias que continuaram vivendo dentro das pessoas que o conheceram.

Hoje, mais de meio século depois daqueles acontecimentos, algumas coincidências começaram a me desconcertar.

Presido o Memorial da América Latina, instituição concebida por Darcy Ribeiro. Darcy e meu pai foram amigos, compartilharam a experiência do governo João Goulart, da perseguição, do exílio e, posteriormente, da vida latino-americana.

Hoje o Memorial trabalha com a CAF. Mais de cinquenta anos atrás, meu pai participava, no ambiente da integração andina, de missões relacionadas à mesma instituição.

Hoje ajudamos a construir no Memorial um Distrito Acadêmico e Científico Latino-Americano, reunindo universidades e instituições em torno da integração pelo conhecimento. Meu pai dedicou parte de sua vida profissional à integração latino-americana.

Hoje escrevo sobre patrimônio, conhecimento, tecnologia, autonomia intelectual e desenvolvimento. Em 1972, ele publicava sobre transferência de tecnologia na fase de pré-investimento.

Durante algum tempo poderíamos chamar tudo isso de coincidência. Talvez seja. Mas existe outra palavra que agora conheço. Caravana.

Tudo o que sou hoje devo a meu pai. Não digo isso porque tenha repetido sua vida. Não repeti. Transmitir não significa produzir uma cópia. Transmitir é permitir uma continuação.

Recebi dele livros. Perguntas. Referências. Amizades. Histórias. Arte. Política. Universidade. América Latina. E uma determinada maneira de acreditar que conhecimento não deve terminar naquele que o recebeu.

Talvez eu tenha conhecido a caravana muito antes de saber que ela tinha esse nome. Conheci-a nas pessoas que atravessavam nossa casa. Nos amigos de meu pai. Nos exilados. Nos livros. Nas conversas que eu ainda era pequeno demais para compreender. Na América Latina que experimentei antes de conseguir conceituá-la.

Décadas depois, algumas dessas perguntas voltaram a me encontrar. Talvez seja assim que uma geração permanece dentro da seguinte. Não fornecendo respostas. Deixando perguntas suficientemente fortes para continuarem sendo feitas.

E hoje compreendo de maneira diferente aquela última prisão.

Levaram os livros de nossa casa. Tentaram interromper homens. Universidades foram vigiadas. Professores foram afastados. Famílias foram dispersadas. Intelectuais partiram.

Mas as ideias viajaram. Algumas chegaram ao Peru. Outras atravessaram os Andes. Algumas entraram em organismos internacionais. Outras foram parar em universidades. Algumas voltaram ao Brasil. Outras permaneceram durante décadas dentro de amigos. E algumas talvez tenham chegado aos filhos sem que eles soubessem exatamente de onde vinham.

Meu pai entrou na caravana antes de mim. Outros vieram antes dele. Outros virão depois.

Não nos cabe repetir seus passos. Cabe-nos receber aquilo que conseguiram trazer até aqui, acrescentar alguma coisa e continuar caminhando.

Porque homens podem ser presos. Livros podem ser levados. Gerações podem ser dispersadas.

Mas, quando uma ideia encontra quem a carregue, a caravana segue.

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