
Colonialismo epistemológico
A grande miopia que transformou conhecimento acumulado em folclore
Por Pedro Mastrobuono
Durante séculos, aprendemos a olhar para uma ruína como testemunho do passado. Talvez tenhamos olhado pouco para aquilo que ela ainda sabe. Uma parede antiga pode conter conhecimento sobre terremotos. Um terraço agrícola pode guardar séculos de experimentação com altitude, temperatura, água e solo. Uma variedade quase esquecida de um tubérculo pode conservar uma resposta genética à seca, ao frio ou a uma doença que ainda nem se tornou problema para a agricultura contemporânea.
Chamamos tudo isso de patrimônio. Mas talvez ainda não tenhamos compreendido inteiramente o significado da palavra. Porque uma civilização não transmite apenas monumentos. Transmite soluções.
Há aproximadamente cinco mil anos, no atual território peruano, floresceu Caral, uma das mais antigas civilizações conhecidas das Américas. Ali foram erguidos conjuntos monumentais, edifícios piramidais, praças circulares e estruturas urbanas cuja complexidade obrigou a arqueologia a rever antigas interpretações sobre a formação das sociedades americanas. A UNESCO reconhece Caral como um dos primeiros centros de civilização do continente.
Entre as técnicas construtivas identificadas pelos arqueólogos estão as chamadas shicras, bolsas confeccionadas com fibras vegetais e preenchidas com pedras, incorporadas aos enchimentos das grandes plataformas arquitetônicas. Estudos realizados no próprio sítio associam essa solução a uma melhor resposta das construções aos frequentes movimentos sísmicos da região.
A imagem é desconcertante porque inverte uma hierarquia à qual nos acostumamos. Se uma sociedade observa repetidamente terremotos, experimenta materiais, modifica suas construções, encontra uma solução capaz de responder melhor aos movimentos do solo e transmite esse conhecimento através das gerações, como devemos chamar aquilo que ela produziu? Tradição? Artesanato? Costume? Ou tecnologia?
Talvez esteja aí o primeiro degrau de uma antiga miopia. A ciência não começa quando recebe esse nome. Começa quando seres humanos observam a realidade, experimentam respostas, corrigem erros e conseguem transmitir soluções.
Caral oferece ainda outra provocação. Nas escavações realizadas em diversos centros urbanos associados àquela civilização, pesquisadores não encontraram até hoje muralhas defensivas nem arsenais que permitam atribuir à guerra o papel estruturante que ela assumiu em tantas outras formações urbanas. Isso não nos autoriza a imaginar uma sociedade idílica ou absolutamente livre de conflitos. A ausência arqueológica de armas tampouco prova a inexistência de violência. Mas permite uma pergunta antropológica muito mais interessante.
E se também tivermos aprendido a associar demasiadamente civilização à conquista, complexidade política à militarização e poder à capacidade de exercer violência? Caral não nos oferece uma resposta definitiva. Oferece algo talvez mais valioso: obriga-nos a reconsiderar a pergunta.
A mesma dificuldade de enxergar reaparece quando subimos os Andes. Durante milhares de anos, agricultores transformaram montanhas em extraordinários sistemas produtivos. Os terraços permitiram trabalhar diferentes altitudes, temperaturas, níveis de umidade, regimes de água e características de solo. A FAO reconhece os sistemas agrícolas andinos entre os patrimônios agrícolas de importância mundial e destaca a longa adaptação de cultivos às diferentes condições ecológicas da cordilheira.
Costumamos olhar para esses terraços e enxergar uma bela paisagem cultural. Talvez devêssemos aprender a enxergar outra coisa. As montanhas andinas foram transformadas em laboratórios verticais. Em diferentes alturas, comunidades observaram comportamentos vegetais, selecionaram variedades, conservaram sementes e tubérculos, adaptaram cultivos e transmitiram resultados durante gerações. Isso não é folclore agrícola. É inteligência agronômica acumulada.
A batata talvez seja a demonstração mais extraordinária. Nos Andes existem milhares de variedades nativas, selecionadas durante séculos para diferentes solos, temperaturas e altitudes. O Centro Internacional da Batata conserva hoje milhares de acessos em seu banco de germoplasma, enquanto a FAO relaciona essa diversidade diretamente à segurança alimentar, à agricultura sustentável e à capacidade de adaptação ambiental.
E existe uma ironia histórica difícil de ignorar. Um alimento domesticado nos Andes tornou-se um dos pilares da alimentação mundial. Hoje mais de um bilhão de pessoas consomem regularmente batatas. Talvez uma das grandes contribuições tecnológicas da América pré-colombiana esteja diariamente no prato de pessoas que desconhecem inteiramente a história intelectual das sociedades que a produziram.
O mesmo raciocínio poderia alcançar a mandioca, os sistemas de manejo amazônico, plantas alimentares, técnicas de conservação, conhecimentos sobre solos, águas e florestas. E aqui encontramos o segundo degrau da miopia.
Quando classificamos determinado conhecimento como folclore, raramente investimos nele. Quando não investimos, não pesquisamos. Quando não pesquisamos, não inovamos. E aquilo que não se transforma em inovação dificilmente participa plenamente da produção de riqueza. O colonialismo epistemológico não empobrece apenas a memória. Pode empobrecer economias.
Não se trata de imaginar ingenuamente que cada alimento tradicional poderia transformar-se numa commodity internacional. A economia é mais complexa. Existem logística, escala, conservação, infraestrutura, hábitos alimentares, regulação sanitária e mercados. Mas basta observar o percurso contemporâneo do açaí para compreender que as categorias “alimento local” e “produto global” não são naturais. São construções econômicas e culturais.
Uma pequena fruta amazônica, durante muito tempo vinculada sobretudo a sistemas alimentares regionais, tornou-se matéria-prima de uma cadeia econômica internacional. Quantos outros conhecimentos agrícolas permanecem invisíveis porque nunca receberam pesquisa, tecnologia, processamento, investimento e mercado? E quanto dessa invisibilidade deriva precisamente da dificuldade histórica de reconhecer como conhecimento aquilo que determinadas populações sabiam?
Talvez um país possa ser pobre não apenas porque lhe faltam recursos, mas porque ainda não aprendeu a reconhecer como riqueza aquilo que sua própria cultura acumulou. Essa pergunta torna-se ainda mais urgente diante das mudanças climáticas.
Uma variedade agrícola resistente à seca, ao frio ou a determinados solos não constitui apenas memória genética. Pode representar segurança alimentar futura. Uma técnica construtiva desenvolvida durante séculos num território sísmico pode não substituir a engenharia contemporânea, mas certamente merece ser investigada por ela. Um conhecimento tradicional sobre um ecossistema não precisa ser aceito como verdade científica apenas porque é antigo. Precisa receber algo muito mais elementar: o direito de ser estudado sem que sua inferioridade tenha sido decidida antecipadamente.
Decolonizar o conhecimento não significa substituir a ciência pela tradição. Significa permitir que a ciência investigue a tradição sem presumir previamente sua inferioridade. Talvez esse seja o terceiro degrau da miopia.
Durante muito tempo, descolonizar significou, corretamente, perguntar quem tinha o direito de contar a história. Quais personagens desapareceram? Quais povos foram silenciados? Quais experiências ficaram fora dos museus, dos livros e das narrativas nacionais? Mas existe outra descolonização ainda incompleta. Não apenas devolver voz a quem foi silenciado. Devolver a condição de conhecimento àquilo que fomos ensinados a classificar como costume.
Isso exige arqueologia. Exige antropologia. Exige universidades. Exige agronomia, engenharia, biologia, história, museologia e ciência da conservação. Exige também instituições públicas capazes de sustentar pesquisas que não produzem respostas imediatas.
O Brasil compreendeu juridicamente parte dessa responsabilidade há muitas décadas. A Lei nº 3.924, de 1961, colocou monumentos arqueológicos e pré-históricos sob proteção pública. E a Convenção da UNESCO promulgada pelo Brasil em 1973 incluiu entre os bens culturais aqueles relacionados à arqueologia, à pré-história, à ciência e à história da ciência e da tecnologia.
Há mais de meio século, portanto, o direito já nos diz que arqueologia é patrimônio. Talvez ainda não tenhamos extraído todas as consequências intelectuais dessa afirmação. Porque proteger um sítio arqueológico não pode significar apenas impedir que alguém o destrua. É necessário conseguir lê-lo.
Um sítio arqueológico sem pesquisadores pode transformar-se numa biblioteca protegida cujos livros ninguém sabe mais ler. Por isso planos de carreira, concursos públicos, formação de arqueólogos, antropólogos, arquitetos, engenheiros, conservadores e pesquisadores não constituem assuntos burocráticos periféricos à política cultural. São infraestrutura do conhecimento.
Tenho insistido, em artigos publicados em jornais de grande circulação, que patrimônio não pode continuar sendo compreendido apenas como aquilo que recebemos do passado. Quando escrevi sobre edifícios históricos brasileiros que desabavam por falta de conservação preventiva, o problema era dramaticamente visível: pedras, paredes, igrejas e casarões desapareciam diante de nossos olhos.
Existe, entretanto, uma destruição muito mais silenciosa. Às vezes o edifício permanece. O sítio permanece. A semente permanece. A comunidade permanece. E aquilo que desaparece é nossa capacidade de compreender o conhecimento que carregam.
Antes escrevi sobre pedras que desabam. Talvez seja necessário escrever agora sobre conhecimentos que desaparecem enquanto as pedras continuam de pé. Há ainda um quarto degrau dessa miopia. Talvez tenhamos nos acostumado excessivamente a procurar fora de nós não apenas tecnologias, mas modelos para imaginar nosso próprio desenvolvimento. Essa dependência atravessa ideologias.
Ao longo da história latino-americana, projetos políticos profundamente diferentes, à direita e à esquerda, frequentemente procuraram em sociedades estrangeiras modelos econômicos, políticos e culturais concebidos para outras experiências históricas. Divergiam nas respostas. Mas, algumas vezes, compartilhavam a geografia da pergunta. A solução continuava vindo de fora.
Não há problema algum em aprender com a Europa, com a Ásia, com os Estados Unidos ou com qualquer outra sociedade. A circulação de conhecimentos é uma das grandes forças da história humana. O problema não foi aprender com a Europa. Foi aprender que somente da Europa poderíamos aprender.
Talvez essa seja uma das formas mais persistentes do colonialismo epistemológico: procurar fora de nós a tecnologia e dentro de nós apenas a tradição. Não precisamos deixar de ler a Europa. Precisamos aprender também a ler Caral. Não precisamos escolher entre o laboratório contemporâneo e o conhecimento ancestral. Precisamos compreender que, algumas vezes, aquilo que chamávamos de tradição era um laboratório cuja linguagem havíamos desaprendido a ler.
Isso vale também para o céu. As sociedades americanas desenvolveram sistemas sofisticados de observação astronômica muito antes da chegada europeia. Maias produziram calendários complexos e cálculos astronômicos; sociedades andinas relacionaram observação celeste, agricultura, arquitetura, organização temporal e vida social.
O céu não começou a ser observado nas Américas quando chegaram os telescópios europeus. Durante milênios, outros olhos já haviam transformado o movimento dos astros em calendário, agricultura, arquitetura e organização social.
Não sabemos que sociedades teriam surgido nas Américas se os europeus jamais tivessem atravessado o Atlântico. A história não possui laboratório de controle. Também sabemos que as sociedades americanas conheciam conflitos, desigualdades, poder e guerra. Não precisamos fabricar um passado ideal para reconhecer a violência da ruptura colonial.
Mas há uma pergunta que continua legítima. Durante séculos perguntamos o que faltava às sociedades americanas para alcançar a modernidade. Talvez devêssemos perguntar também: O que a modernidade deixou de aprender porque não soube reconhecer aquilo que essas sociedades já sabiam?
A conquista não encontrou um continente imóvel esperando que a história começasse. Encontrou sociedades em movimento. Tecnologias sendo desenvolvidas. Sistemas agrícolas sendo aperfeiçoados. Cidades sendo construídas. Céus sendo observados. Conhecimentos sendo transmitidos. Não encontrou um continente sem futuro. Encontrou futuros que já estavam acontecendo.
E quando um sistema de conhecimento desaparece, não perdemos apenas suas respostas. Perdemos também suas perguntas. Aquilo que observava. Aquilo que classificava. Aquilo que julgava importante. As relações que aprendera a estabelecer entre fenômenos. Quando desaparece uma epistemologia, o mundo não perde apenas uma biblioteca. Perde também uma maneira de fazer perguntas à realidade.
Talvez seja por isso que sinto particular orgulho de presidir o Memorial da América Latina. Darcy Ribeiro não imaginou aquela instituição como monumento à nostalgia latino-americana. Imaginou-a como lugar onde a América Latina pudesse reconhecer-se, pensar-se e encontrar-se.
Hoje, com a consolidação do Distrito Acadêmico e a presença da USP, da Unesp e da Unicamp no Memorial, essa vocação adquire uma dimensão que me emociona especialmente. Patrimônio, universidade, ciência, cultura e integração passam novamente a conversar.
Talvez seja precisamente desse encontro que possa nascer uma compreensão mais madura do que significa ser latino-americano. Não uma identidade construída contra alguém. Não a rejeição da ciência produzida fora daqui. Não a idealização dos povos originários. Mas a consciência de que somos também herdeiros de experiências civilizatórias capazes de produzir conhecimento, tecnologia, beleza, organização social e soluções para a vida.
Darcy Ribeiro passou grande parte de sua obra tentando fazer a América Latina enxergar sua própria força civilizatória. Talvez ainda estejamos aprendendo. E talvez a verdadeira decolonização epistemológica comece justamente quando deixarmos de perguntar apenas quais vozes o passado silenciou e passarmos também a perguntar quais conhecimentos fomos ensinados a não reconhecer como conhecimento.
Porque a miopia começa no olhar. Mas pode terminar na ciência, na segurança alimentar, na economia, na autonomia intelectual e no desenvolvimento de uma sociedade.
Uma América Latina capaz de reconhecer o conhecimento que herdou talvez seja também uma América Latina mais capaz de escolher o futuro que deseja construir. Uma civilização não perde apenas aquilo que destrói. Perde também aquilo que deixa de saber reconhecer, pesquisar e transmitir.
