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Darcy Ribeiro no século 21

Há intelectuais cuja obra pertence ao seu tempo. Outros parecem escrever para épocas que ainda não chegaram. Tenho a impressão de que Darcy Ribeiro pertence a essa segunda categoria.
 

Durante muito tempo, acostumamo-nos a recordar Darcy sobretudo como antropólogo, educador, ministro, senador, escritor ou fundador do Memorial da América Latina. Todas essas definições são verdadeiras. Mas talvez sejam insuficientes.
 

Darcy nunca foi apenas um homem de realizações. Foi um formulador de perguntas. E talvez seja precisamente por isso que continue tão atual. Vivemos em uma época extraordinariamente competente para discutir meios. Debatemos produtividade, indicadores, eficiência administrativa, inovação tecnológica, inteligência artificial, desempenho institucional e modelos de gestão com um grau de sofisticação jamais conhecido.
 

Nada disso é secundário. Ao contrário, uma sociedade que administra mal seus recursos dificilmente conseguirá produzir políticas públicas duradouras. A boa gestão constitui uma condição necessária para qualquer projeto coletivo.
 

Mas talvez Darcy nos lembrasse de que ela nunca foi suficiente. Porque toda eficiência responde apenas a uma pergunta: como? E nenhuma civilização se sustenta apenas pelo domínio dos meios. Ela precisa responder também à pergunta dos fins. Para quê?
 

Essa talvez seja a questão mais esquecida do século 21. Costumamos discutir intensamente como produzir mais riqueza, mais tecnologia, mais desempenho e mais crescimento. Discutimos muito menos qual projeto de sociedade desejamos construir com tudo isso.
 

Talvez seja justamente nesse ponto que Darcy Ribeiro volte a caminhar entre nós. Ele jamais desprezou a importância da competência administrativa. Mas recusava a ideia de uma administração destituída de projeto civilizatório.
 

O Estado, para Darcy, nunca existiu apenas para administrar. Existia para produzir futuro. Essa distinção permanece profundamente atual. Ao longo dos últimos anos, tive a honra de presidir a Fundação Memorial da América Latina, instituição idealizada por Darcy Ribeiro. Durante esse período, procuramos demonstrar que responsabilidade administrativa e compromisso social não apenas podem conviver, mas precisam fortalecer-se mutuamente.
 

O Memorial ampliou receitas, diversificou fontes de financiamento, consolidou parcerias, cumpriu sucessivamente metas orçamentárias e alcançou resultados administrativos expressivos. Mas a pergunta nunca foi apenas como administrar melhor. Sempre foi: administrar para quê?
 

Foi dessa pergunta que nasceram iniciativas como o Centro de Ensino Superior Darcy Ribeiro, o Distrito Acadêmico e Científico Latino-Americano, o fortalecimento do Centro Brasileiro de Estudos da América Latina, a consolidação da Cátedra UNESCO e a criação da Cátedra das Línguas dos Povos Originários.
 

Nenhum desses projetos nasceu apenas da busca por eficiência. Nasceu da convicção de que instituições culturais existem para produzir conhecimento, fortalecer a democracia, preservar a memória e ampliar os horizontes civilizatórios de uma sociedade.
 

Talvez seja exatamente essa a maior herança de Darcy. Ele compreendia que desenvolvimento econômico, educação, ciência e cultura jamais deveriam competir entre si. Pertenciam ao mesmo projeto de nação.
 

Essa compreensão talvez seja ainda mais necessária em um tempo marcado pela polarização. Acostumamo-nos a imaginar que eficiência administrativa e compromisso social pertencem a campos opostos. Talvez essa seja uma falsa escolha.
 

Uma administração ineficiente dificilmente produz justiça social. Mas uma administração extremamente eficiente, desprovida de projeto humano, pode tornar-se igualmente insuficiente. A potência de um motor não determina o destino de uma viagem. Ela apenas amplia a capacidade de deslocamento.
 

Sem direção, sem propósito e sem alguém capaz de escolher o caminho, até o automóvel mais potente pode conduzir ao abismo. O mesmo acontece com uma sociedade. A eficiência amplia possibilidades. Mas não define horizontes.
 

Darcy dedicou toda a sua vida precisamente à construção desses horizontes. Ainda criança, tive o privilégio de conhecê-lo durante o período em que minha família viveu em Lima, no Peru. Darcy mantinha estreita amizade com meu pai, Marco Antônio Mastrobuono, ambos integrantes do governo João Goulart e posteriormente unidos pelas circunstâncias do exílio latino-americano. Naquela época eu não poderia imaginar que, décadas mais tarde, assumiria a presidência da instituição concebida por ele como espaço permanente de integração entre os povos da América Latina.
 

Talvez essa trajetória pessoal explique por que nunca consegui enxergar Darcy apenas como personagem histórico. Vejo nele um pensador do futuro. Porque suas perguntas continuam abertas. Como construir uma universidade comprometida com o desenvolvimento nacional? Como produzir ciência sem abandonar a cultura? Como integrar eficiência e justiça social? Como preservar a memória sem transformar o passado em nostalgia? Como formar cidadãos e não apenas profissionais?
 

Talvez seja justamente por isso que Darcy continue tão necessário. Não porque tenhamos preservado sua memória. Mas porque ainda não respondemos plenamente às perguntas que ele nos deixou.
 

Enquanto discutirmos apenas como administrar melhor o país, sem perguntar que país desejamos construir, Darcy Ribeiro continuará pertencendo menos ao passado do que ao futuro. Seu verdadeiro legado não é um monumento. É um projeto civilizatório ainda em construção.

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