top of page
frente-distrito-academico-cientifico-latino-americano.jpeg

Algumas ideias demoram cinquenta anos para florescer

Por Pedro Mastrobuono

Há momentos em que uma instituição deixa de ser apenas um lugar. Torna-se uma experiência do tempo. Foi exatamente essa a sensação que tive ao caminhar, nos últimos dias, pelo Memorial da América Latina.

Na fachada do edifício da administração, Darcy Ribeiro já não aparecia apenas como o fundador de uma instituição. Seu rosto passou a anunciar algo muito maior. Ao seu lado estavam reunidas a Universidade de São Paulo, a Universidade Estadual Paulista, a Universidade Estadual de Campinas, o Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP e o recém-criado Centro de Ensino Superior Darcy Ribeiro.

Dentro do edifício, o que a imagem anunciava já começava a transformar-se em cotidiano. O PROLAM iniciava suas atividades acadêmicas naquele espaço. A Unicamp ocupava o Pavilhão da Criatividade com uma exposição dedicada ao professor Carlos Rodrigues Brandão. A Unesp promovia uma conferência internacional sobre a América Latina. Pela primeira vez, o Distrito Acadêmico Latino-Americano deixava de existir apenas como projeto institucional e passava a existir como experiência concreta.

Enquanto observava aquele movimento, tive uma impressão difícil de explicar. Era como se diferentes tempos da minha própria vida caminhassem simultaneamente pelo mesmo lugar.

Meu pai iniciou sua vida pública ainda muito jovem no movimento estudantil da Universidade de São Paulo. Foi eleito e posteriormente reeleito por unanimidade para a presidência do Diretório Central dos Estudantes. Alguns anos depois, aos vinte e oito anos de idade, já ocupava funções ministeriais no governo João Goulart. Vieram então o golpe de 1964, as prisões, o exílio e a reconstrução da vida no Peru.

Na infância, porém, eu não compreendia o significado histórico de tudo aquilo. Para mim, eram apenas pessoas que frequentavam nossa casa: Darcy Ribeiro, Oswaldo Guayasamín, Gustavo “Toto” Fernández Saavedra, José María Arguedas.

Somente muitos anos mais tarde compreendi que aqueles encontros representavam uma geração inteira de latino-americanos que acreditava que cultura, universidade, ciência e integração continental pertenciam a um mesmo projeto civilizatório.

Entre essas presenças havia uma que hoje voltou particularmente à minha memória: Oswaldo Guayasamín. Meu pai mantinha com ele uma amizade construída nos anos do Peru e das frequentes viagens a Quito. Guayasamín pintou para ele algumas obras pertencentes ao ciclo La Edad de la Ira, no qual as grandes mãos se tornariam um dos símbolos mais conhecidos da pintura latino-americana do século 20. Uma dessas pinturas chegou a ilustrar a capa de um livro.

Décadas depois, quando o Memorial da América Latina realizou uma importante retrospectiva da obra de Guayasamín, meu pai emprestou pinturas de sua coleção particular para a exposição. Guardou até o fim da vida um pequeno reconhecimento em acrílico oferecido pelo Memorial aos colecionadores que colaboraram com aquela mostra.

Naquele momento, nenhum de nós poderia imaginar que, anos mais tarde, eu próprio estaria à frente da instituição que lhe concedera aquele reconhecimento.

Há poucos dias, também acompanhei pelas redes sociais fotografias de estudantes distribuindo material em defesa do Memorial da América Latina em diferentes pontos da cidade. Não presenciei pessoalmente aquelas manifestações, mas elas me emocionaram profundamente. Não porque expressassem concordância com uma gestão ou uma posição específica, mas porque revelavam algo muito mais importante. O Memorial começava a ser percebido por uma nova geração como um patrimônio digno de cuidado.

O movimento estudantil latino-americano sempre foi mais do que um espaço de reivindicação. Foi também uma das grandes escolas da responsabilidade pública. Ali se formaram pesquisadores, professores, intelectuais, gestores, ministros, parlamentares e presidentes. Ali muitos aprenderam que algumas instituições pertencem temporariamente a uma geração apenas para que possam ser entregues, fortalecidas, à geração seguinte.

Essa percepção fez-me recordar outra figura cuja trajetória atravessou o mesmo horizonte histórico. José “Pepe” Mujica recordaria, muitos anos depois, o período em que jovens uruguaios acolhiam brasileiros perseguidos pela ditadura. A solidariedade latino-americana não era então uma abstração diplomática. Era uma experiência concreta vivida por estudantes, professores, artistas, intelectuais e exilados que acreditavam que a educação e a cultura eram formas de reconstruir sociedades.

Talvez tenha sido exatamente essa experiência que Darcy Ribeiro jamais abandonou. Costumamos perguntar o que restou de Darcy. Talvez a pergunta esteja mal formulada. A questão não seja saber o que restou, mas descobrir em quais lugares seu pensamento continua produzindo realidade.

As ideias não permanecem vivas porque são repetidas, permanecem vivas quando encontram novas gerações dispostas a lhes dar forma. Durante muito tempo imaginei que preservar patrimônio significasse cuidar daquilo que recebemos do passado.

​Hoje começo a compreender que patrimônio é também aquilo que conseguimos transmitir ao futuro. Museus fazem isso, bibliotecas fazem isso, universidades fazem isso, instituições culturais fazem isso. Elas não preservam apenas edifícios, acervos ou documentos. Preservam a possibilidade de que certas ideias permaneçam disponíveis até que outra geração esteja pronta para habitá-las.

Ao deixar o Memorial naquele dia, compreendi que minha emoção não vinha apenas da inauguração de um novo ciclo acadêmico. Ela nascia da percepção de que algumas ideias realmente atravessam gerações. Às vezes permanecem silenciosas durante décadas. Depois, inesperadamente, encontram novas pessoas, novas instituições e novas circunstâncias. Então voltam a florescer.


Enquanto observava professores, estudantes, pesquisadores e universidades ocupando novamente o Memorial da América Latina, ocorreu-me um pensamento que desde então não me deixou. De forma latente, algo maior: a capacidade que algumas ideias possuem de sobreviver às pessoas que as criaram e de encontrar, muitos anos depois, novas gerações dispostas a transformá-las novamente em realidade.

Talvez Darcy Ribeiro não tivesse voltado ao Memorial. Talvez ele nunca tivesse ido embora.

bottom of page